Já não dá mais para ignorar e nem esconder debaixo dos futons:
Uma parte da geração de jovens brasileiros dekasseguis no Japão está marginalizada.
Não no sentido do crime, mas nas oportunidades de acesso à educação formal.
Se no Brasil os jovens da classe média nikkey vão para a USP e Unicamp.Aqui os seus primos pobres que vão para uma faculdade japonesa , mesmo as de terceira categoria, podem ser contados nos dedos da mão esquerda do Lula. A grande maioria nem chega a entrar no colegial, acaba no ginásio ou nem isso, e vai trabalhar na fábrica junto com os pais
A consequência? Qualquer semelhança com as comunidades da periferia brasileira ou dos
guetos de imigrantes ou minorias raciais dos Estados Unidos não é uma mera concidência.
Hamamatsu não chega a ser uma Detroit ou São Bernardo , mas as linhas de desmontagens sociais estão criando algumas consequências que podem ser vistas nos muros do centro da cidade: A pichação.
Quem passa os olhos nos rabiscos pensa que é uma obra de baderneiros sem noção ou jovens embriagados ou drogados. Dizer isso é simplificar demais e não enxergar o que está acontecendo. É olhar para a árvore e não para a montanha, e o pico é mais encima . Essa é uma das faces de um movimento cultural dos excluidos: o Hip Hop.
Cultural? Sim cara amarela. Para entender isso você tem que se livrar dos preconceitos que cercam a cultura negra, em particular de um fenômeno que surgiu nos bairros pobres de Nova Iorque.
Esse
site aqui explica didaticamente o que é o movimento Hip Hop, que muita gente pensa erroneamente que é apenas aquela canção sem melodia com letras declamadas e não cantadas por jovens de bonés com calças folgadas e cara de marginal.
De todos os movimentos populares, o Hip Hop foi o único que conseguiu reunir as 4 artes: dança (breaking), plásticas (grafite e pichação), música (DJ) , poesia (MC).
Do Bronx nova iorquino o Hip Hop alcançou o mundo e virou expressão de protesto social e se estabeleceu em lugares onde a desordem e a pobreza eram dominantes. Como todo jovem quer ser parte de um grupo e sentindo se excluido das atividades culturais da classe média, o Hip Hop conquistou o seu espaço na periferia. Ainda é discriminado, mas já está sendo visto aos poucos como um modo de inserção social, através de atividades com apoio do pode público, mesmo que descontinuadas.
Em São Paulo durante as gestão da Marta Suplicy foi criado a semana do Hip Hop que foi cancelado pelo prefeito atual Gilberto Kassab que parece
não ver com simpatia o movimento.
E o Hip Hop no Japão?
Em Hamamatsu pelo menos está servindo como um meio de integração entre brasileiros e japoneses, muito mais do que um meio de protesto social.
Em novembro aconteceu um encontro de Hip Hop numa casa noturna japonesa, a
Young Adult onde as 4 áreas do movimento estiveram presentes.
O
ZIMA HIP HOP NATION teve a participação de grupos de dança com integrantes brasileiros e japoneses como o
Eternal Crew e um grupo brasileiro , o
Floor Monsters.
Dos MCs vieram os brasileiros
Shina ,
Yut Pirapura , o DJ alemão Coach One e o
japonês Yukijirushi.
Do grafiti , o
japonês XIN mostrou ao vivo a sua arte do spray.
Hamamatsu tem o potencial de ter o Hip Hop como meio do tão desejado intercâmbio multicultural. A semente humana já esta germinando.
Só falta o apoio de algum orgão público ou uma NPO que queira trabalhar na integração do ponto de vista dos jovens e não impor políticas culturais de cima pra baixo como cursos de línguas ou eventos sem nenhum apelo para adolescentes.
Aliás, o Hip Hop pode ser um bom meio de incentivar o aprendizado da língua japonesa, pois a
métrica das rimas das letras das músicas pode ser um desafio estimulante para os jovens brasileiros interessados em se tornar MCs bilingues como o
pessoal do Tensais MCs.
Mas voltando a pergunta do post, a questão da pichação é a mais delicada. Mesmo sendo um
instrumento de expressão , todo grafitero sabe que pichar locais públicos ou particulares é crime e aqui no Japão a polícia pode não dar uns tapas no pichador, mas certamente o artista vai passar uma temporada na cadeia, sem direito a pena alternativa como é no Brasil..Nessa matéria do
Shizuoka Shinbun do dia 20 de abril de 2007 , as assinaturas desse crew (equipe) repercutiram bem mal na cidade.
Ainda não apareceu um grupo organizado de Hip Hop seja brasileiro ou japonês que queira ou saiba procurar os orgãos públicos para pedir um espaço para o grafite ou mesmo para a dança.
Espaços existem, como essas grades de um rio da cidade que foram pintadas de modo que as figuras só aparecem quando observadas de certos angulos.
Taí uma boa ideía. Será que tem algum artistda do spray que consegue fazer um
grafite em paralaxe?
Mas num espaço autorizado, afinal a criatividade e o respeito ao próximo fazem parte da filosofia do Hip Hop e não a trangressão pura e simples.
A figura só aparece de lado: o efeito paralaxe.
De frente, a figura passa desapercebida.
P.S.
Quem via ele de terno e gravata no Japão nunca desconfiou que fosse da galera dos manos e das minas.